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| A ESSÊNCIA DA GUERREIRA

À frente da Casa do Zezinho, Tia Dag afirma que acredita no futuro e quer ver uma sociedade incomodada com as injustiças sociais.

Junto com o marido, Dagmar Garroux (a Tia Dag) comprou um imóvel que nunca morou para transformá-lo numa espécie de centro de educação, diversão e cultura. Chamado Casa do Zezinho, o espaço é dedicado às crianças da região do Capão Redondo.
Ela, pedagoga de formação, é discípula de Paulo Freire, um dos maiores educadores de todos os tempos. Já com uma larga experiência em atender crianças e jovens com problemas, Dagmar, com o apoio do marido, o artista plástico Saulo Garroux, transformou sua idéia em uma das mais bem sucedidas experiências de educação.
Muitos obstáculos tiveram que ser enfrentados pela Tia Dag...

Aqui, algumas palavras de sua experiência.

A Casa do Zezinho existe há 14 anos. A idéia de criar o local vem de um longo tempo. Eu sempre morei na região de Santo Amaro, e a gente já tinha uma atuação social muito grande. Eu trabalhava como psicopedagoga, lá por 1976. Na minha casa, eu trabalhava com crianças refugiadas de guerra e de regimes ditatoriais, como chilenos e argentinos, e com crianças com desvios de comportamento, mas de uma maneira muito inovadora. Na época, trabalhava-se psicopedagogicamente você, a criança e o mundo. E uma das ferramentas pedagógicas era levar esses jovens às favelas para lhes mostrar que as crianças de lá tinham traumas de 400 anos, por serem filhos de negros e índios. E eu falava: “Vocês têm um trauma momentâneo. Seus avós são chilenos, tenho certeza que vocês comem comida chilena. A cultura vem junto.” Agora, aqui não, pois foi tudo massacrado. Na época do milagre econômico, todos compraram televisão. A favela era pobre, mas tinha uma célula familiar, onde o pai era autoridade. Com o advento da televisão, o jovem falou: “Quero participar desta brincadeira. Quero danoninho, canetinha, tênis. Eu quero.”
Diante disso, eles começaram a roubar na própria comunidade. Aí surgiram os famosos esquadrões da morte, que são similares às milícias no Rio de Janeiro. Eles colocavam no poste quem iria morrer em uma semana se não saísse da favela. Agora, eu estou falando de crianças de 11, 12 anos de idade. Então, comecei a esconder as crianças. Em São Paulo não tinha onde esconder, nós começamos a levar pra casa, que obviamente ficou pequena. Em 1986, procuramos uma casa maior. Essa aqui (onde a Casa do Zezinho começou) tinha dois quartos, sala, cozinha e banheiro. A rua era de terra. Veja como cresceu em 20 anos. Eu falei pro meu marido que tinha me cansado de trabalhar pra gente rica e que iria passar a trabalhar com gente de baixa renda, com educação.
Eu me juntei com outros amigos da USP, que naquela época queriam mudar o Brasil, e resolvemos mudar através da educação, de uma maneira inovadora, maluca. E foi aí que começou a Casado Zezinho.

A comunidade

A comunidade respeita quem os ajuda? Não se trata de “quem os ajuda”. E sim quem os respeita. Tem que parar com isso. Tem certas palavras que aqui na Casa do Zezinho não são ditas como:
Ajuda, carente – por que quem não é carente? Você é? Eu não sou? Todos têm sua fase de carência. Nós mapeamos, em 1990, para saber quais eram as competências do lugar. Não para saber o que não era. O que esse meu cliente sabe fazer? A minha competência era dar aula de cerâmica. Na época, só havia filhos de nortistas e nordestinos. Então fui aprender cerâmica numa fundação japonesa. Quando cheguei e comecei a dar aulas, uma criança falou para mim: “A minha avó faz isso com casca de coco.” Então falei, vá buscá-la. Ela veio, quebrou o coco e fez. E eu cheia de ferramentas japonesas. E pensei: estou fazendo tudo errado. O Paulo Freire me ensinou tanto e eu estou errando. Então disse: “A senhora será a primeira educadora contratada”. E ela disse: “Não posso não, sou analfabeta”. E respondi: “Eu sou analfabeta em casca de coco e a senhora é analfabeta em letras”. Hoje ela vive de cerâmica, inclusive com conhecimentos da técnica japonesa, pois trocamos informações.

O perfil da criança que freqüenta a Casa do Zezinho

Ele mudou muito. Hoje eu penso que eles não são paulistanos, não são brasileiros, não são nordestinos. Eles são da periferia. Porque na cidade de São Paulo ninguém os recebe. Não há uma identificação da cidade com eles. Tem mil coisas acontecendo no centro e cadê o dinheiro da condução para ir até lá? Cadê o passe escolar, que é um direito? A cidade não os recebe, parece que se criou uma nova nacionalidade. Os manos, a turma da periferia. Houve uma época em que a auto-estima estava lá em baixo. Porque quem morava no Capão Redondo, no Jardim Ângela, não conseguia emprego. Hoje, com o movimento do hip hop, a periferia ganhou auto-estima.

Violência

No começo de agosto, saiu o mapa do crime, que mostra que os bairros Capão Redondo, Parque Santo Antônio e Jardim Angela são conhecidos como “triângulo da morte” porque é neles que acontece a maior quantidade de crimes contra a vida (homicídio e estupro). O estudo mostrou ainda que existem crimes em toda a cidade, mas que são diferentes por causa do perfil da região, que é tão violento. Aqui temos saúde, mas tem muita mãe que não consegue atendimento. Por que se mata muito? Porque o Estado não respeita muito também a vida aqui. Que violência é essa? Por que se mata muito? Porque a vida é banalizada. Porque o atendimento público é banalizado. È fácil falar que “eles não são cidadãos”. Agora pára e pensa, o que é ser cidadão? È ter direito civil, político e social. E o que é o direito civil? È certidão de nascimento, um pai e mãe. O DNA já devia ter no hospital. È um absurdo falar de cidadania aqui, porque a violência começa do Estado.
A saúde é péssima. A escola está cada dia mais devassada e ainda estamos no século 19. Mas óbvio que aqui se mata mais. Aqui temos 1 milhão e meio de habitantes. E pergunto: Quantos teatros tem aqui? Nenhum. Quantos cinemas? Dois, e ainda no Shopping Campo Limpo, onde o menino não tem dinheiro para ir. Não tem onde brincar, não tem espaço. Eu te devolvo a pergunta. A vida aqui não tem nenhum valor?

As parcerias

O foco da Casa é o desenvolvimento humano. Hoje ela se mantém com projetos. Cerca de 80% do dinheiro é da iniciativa privada. E nós não demoramos muito para conseguir esses patrocínios.
Sobre os projetos sociais do Governo, eu não vou nem opinar porque eu não conheço de perto. O que eu sinto é que os projetos sociais precisam se profissionalizar. Não se pode perder o olhar humanitário, já que nenhuma criança consegue aprender sem enxergar, com dor de dente, com fome, com piolho na cabeça. É preciso ter um olhar que transcenda a própria física.
Não se pode ter um olhar fragmentado. Hoje eu vejo universitários, e tenho vontade de chorar pela não participação deles no processo do País. Eu vejo que as pessoas se fecham em bolhas e dizem que estão fazendo a sua parte. Mas pensar em fazer sua parte parece lição de casa. Isso é terrível.
Agora, se você é parte dessa cidade, desse bairro, dessa rua, aí sim você terá um olhar diferenciado. E tem que pensar na gestão financeira, tem que ter estratégia. Você tem que ser uma empresa em que o “lucro” seja fazer as pessoas felizes. A ONG é um projeto social, não pode ser engessado. Mas é vislumbrar o futuro que você quer para esse ser humano, junto com o que ele quer também, e que ele tenha poder de escolha.
Tem uma história muito legal. Foi em 1994. Eu me lembro que tinha 60 “Zezinhos” freqüentando a Casa. Um menino quebrou um dedo e corri para um ortopedista particular e, na época, não tinha tanto McDonald’s assim como hoje. Ele voltou engessado com uma caixinha do Lanche Feliz. No dia seguinte, tinha cinco crianças com o dedo quebrado. Eu levei um susto. E pensei: que raio de pedagoga é você? Eles estão quebrando o dedo para ir no McDonald’s. Então juntei os 60 e falei: “Gente, vocês estão quebrando o dedo para ir ao Mc? Era só pedir!”. Mas como essa população está tão massacrada, o menino pensa: eu não posso falar e nem pedir, e só tenho que aceitar a “ajuda”. Criamos na Casa do Zezinho a formação de comissões de sala, a roda de informação. Hoje, ela é uma base que vem reivindicar e conversar. Levei os 60 no McDonald’s, e lá encontrei um empresário que veio me perguntar o que estava acontecendo. Contei a história. E ele falou: “Posso ajudar na carona?” Ele ajudou, e, na época, tinha um terreno baldio ao lado da Casa, e ele me perguntou qual era o meu sonho. E respondi: “Ter mil crianças.”. E ele perguntou: “Esse terreno daria?”. E até hoje ele é nosso vice-presidente. Isso só pode ser conspiração cósmica.

Por que Zezinho?

A poesia do Carlos Drummond de Andrade, “E agora José?”. O brasileiro tem uma mania de chamar quem não se veste de acordo de Zé Mané, Zé Coitado ou Zé Ninguém. Então, pensei, vamos falar quem vai ser esse Zé. E da interrogação passou para a exclamação. È agora, José!
Hoje temos 1.200 crianças, mas temos uma fila de espera com 2 mil. Porque todo mundo quer estudar na Casa do Zezinho. Porque aqui os sonhos são respeitados. Entra com 7 anos e pode ficar até 21. Mas tem mães que colocam as crianças na fila com quatro anos.
Tem mães que não querem participar. Mas vamos até suas casas, conversamos. Temos um trabalho em campo. Nada é por ameaça, repressão, mas sim por prevenção. Recebemos doações, e todo último sábado fazemos um bazar com peças de R$ 0,50 e R$ 1,00. Sabe como eles chamam? O Shopping do Santo Antônio. É tão digno. É lindo vê-las colocarem as coisas na sacola para levar pra casa, depois de comprar. Eu não aceito lixo, eu mando de volta. Eu não limpo a casa de ninguém.

Zezinhos que deram certo

A primeira coisa é que ele sabe quem é ele. Tem um garoto que se chama Marcos Lopes, mais conhecido como Nenê, que foi expulso da escola w, e caiu para a bandidagem. A Casa do Zezinho o buscou, ele fez Letras na USP da Zona Leste, hoje ele é professor de Literatura na escola da qual ele foi expulso, e está lançando um livro chamado “Zona de Guerra”. O sonho dele é ser escritor.
Aqui na Casa do Zezinho, um “mau aluno” nunca será expulso. Aqui, quem vai expulso é o educador. Ao contrário, quanto mais problema tem o jovem, mais temos que trabalhar. Aí falo: “Cadê sua competência? É educação ou educação?”.
Quando um Zezinho sai, vamos procurar saber porque saiu. Tudo está baseado nos Zezinhos, a Casa existe por causa deles. Claro que há regras, mas feitas para o bem deles. O comprometimento com a comunidade é muito grande.

A mídia na periferia

A mídia deveria dar muito mais cobertura pelas competências da periferia, pelas habilidades. Em cada beco tem um sonho, um brilhante. Mas não, eles mostram a fome, a miséria, a falta de saneamento, de moradia, de saúde. Que também existe, mas não é só isso. A mídia podia mostrar o que tem de fantástico na periferia.
Aqui, eu aprendi a fazer cerâmica com casca de coco. Você consegue fazer uma casa em um dia? Eles fazem. Você consegue dormir em 12 metros quadrados? Eles dormem. Mas a mídia só mostra o que tem de ruim. E não tem nada de bom? A Casa do Zezinho não acredita nisso. Quando a mídia vem aqui, eu mostro as competências. Levo em associações. O povo não tem nem um teatro aqui. Eu vou construir um teatro aqui ainda. Ah vou, vou achar um louco como eu.

Recado para quem acredita no futuro

Nós sabemos bem os deveres, mas esquecemos os direitos.
Se toda a sociedade fosse cidadã, não existiria esse abismo cultural, social, educacional. Essa história de responsabilidade social deve ser primeiro com seus funcionários, depois com o entorno.
Mas ainda pensamos no extrativismo. A gente ainda não é cidadão. As pessoas reclamam e não fazem nada para melhorar. A democracia é um estado de direito. Mas, hoje, o jovem nem sabe o que é isso. É preciso pensar no futuro, no desenvolvimento humano. Tem que pensar além do consumo. Tem que pensar como ser humano. Pensar o futuro. Se dentro de sua casa há uma analfabeta funcional, você é responsável. Por que não a incentiva a estudar? Temos que contaminar as pessoas através da informação, da educação, da cultura e da identidade. Eu acredito numa sociedade assim, incomodada.

Educar, um ato de amor
O amor de educar
O amor e o dever

Se me perguntarem por que faço tudo o que faço, por que trabalho como uma louca, direi sem pestanejar que é por amor. Trabalho por amor. Educação é amor. Toda a minha vida, privada ou pública, familiar ou profissional, só vale proporcionalmente ao amor que nela coloquei ou encontrei. Educar pra mim não se restringe a um dever. Educo por amor. Ao amor não damos ordens, não podemos comandá-lo. Quanto mais colocamos amor no ato de educar menos ele se torna uma obrigação.
Como poderia escolher entre os meus vários amores, ainda que entre vários desejos diferentes, minha neta, meu filho, meu marido, minha equipe de trabalho, as crianças e os jovens – em função deles? Enquanto o dever de ensinar é pra mim uma obrigação, o amor de ensinar é a plena liberdade. É claro que dever e amor se complementam. Ambos são necessários. O amor é o próprio bem, já o dever é uma imposição da nossa consciência. O ato do amor de educar é dar-se a si mesma. Qual mãe alimenta o filho por dever? O ato generoso de escutar uma criança, de sentir seus medos e sonhos, faz do educador um privilegiado. Parar a aula, parar o pensamento pra dar atenção para um pequenininho é essencial como escutar o barulho de uma folha caindo. O educador que conquista o silêncio amoroso com seus alunos atinge o amor quieto, não precisará mais gritar. A sedução, o encanto, o despertar da natureza de cada aluno é o ato de amizade que a educação oferece. Amar uma criança é praticar de bom grado todos os meus deveres de educadora para com ela. Você não pode dizer que devemos fazer alguma coisa pelas crianças pobres, por que o mandamento de que devemos é em si contraditório, o amor não é um mandamento, é um ideal que nos guia e nos ilumina.

Tia Dag

site: www.casadozezinho.org.br

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