O mundo do (re)começo

Relato de duas experiências de trabalho em países em situação de pós-conflito
(Re)começar… Todo recomeço significa incerteza, o novo é sempre um desafio a ser vencido e novas experiências a serem vivenciadas. Quando é intencional, se quer mudar algo que não está bem, esse recomeço pode ter um sabor de liberdade e de conquista, uma vez que se é capaz de ir em busca de algo melhor para si por vontade própria. Porém o recomeço de vida não é uma opção, é uma imposição, para os milhares de refugiados e deslocados internos espalhados pelo mundo em áreas de conflitos ou de desastres naturais.
Seja por causas naturais ou geradas pelo próprio homem, para fugir da morte, esses refugiados são forçados a deixar suas regiões de origem e irem em busca da própria sobrevivência em áreas mais seguras ou de menor risco. Para maior proteção, é comum que se desloquem em grupos e se organizem em comunidades, campos de refugiados ou campos de deslocados internos. Lá buscam na coletividade um pouco de conforto e na ajuda humanitária, quando esta está presente, um pouco de esperança. Muitos lá nascem, outros lá crescem, outros tantos por lá mesmo morrem e, não é incomum que, de situação de transição, essa se torne a sua realidade permanente.
Em 2005 inúmeras organizações governamentais e não governamentais estimaram o número de refugiados e deslocados internos em 40 milhões ao redor do mundo. A grande maioria encontra-se nos continentes africano e asiático, com a predominância de mulheres e crianças.
Com sorte e com coragem, alguns um dia conseguem vivenciar a experiência de reviver a paz, de retornar a suas regiões de origem e ter força suficiente para então recomeçar suas vidas. Porém, quando esses retornam, não é incomum encontrarem terra arrasada e descobrirem que da infra-estrutura antes existente restou pouco; eletricidade, água encanada, serviços públicos de educação, saúde, ou qualquer outro, normalmente ficam no passado ou são controlados pela corrupção num mundo sem leis formais. A população de retornados em geral desconhece o significado real da palavra futuro. Para eles o que vale é a sobrevivência de cada dia. Depois de tantos anos de incerteza, o amanhã perde importância, uma vez que não se tem tempo para pensar no que não se sabe se existe.
O Serviço Jesuíta a Refugiados (Jesuit Refugee Service: JRS) é uma organização internacional que trabalha em mais de 50 países, com a missão de acompanhar, servir e defender os direitos dos refugiados e deslocados internos. A missão do JRS compreende todos que foram expulsos de seus lugares de origem por conflitos, desastres humanitários ou violação de direitos humanos. As principais áreas de trabalho da organização são educação, defesa dos direitos humanos, assistência em emergências, saúde e nutrição, atividades geradoras de renda e serviços sociais.
Conhecemos o JRS em 2007, quando o Mauro, buscando uma experiencia pratica para finalizar sua especialização em Ação Humanitária na Europa entrou em contato com membros da organização. Surgiu então a oportunidade dele integrar o time do JRS na Liberia e, como para o mesmo programa era necessário também alguém da área da construção, acabamos indo trabalhar juntos.
Atualmente estamos na nossa segunda experiência de trabalho com o JRS, no continente africano e com comunidades de retornados reiniciando suas vidas depois de muitos anos de exílio. A primeira experiência foram 10 meses de trabalho na Libéria, costa oeste africana, de julho de 2007 a maio de 2008. E a segunda e presente experiência está sendo no sul do Sudão, região leste africana, desde julho de 2008.
Na Libéria iniciamos nosso contrato sabendo que seria por um curto período e que no início de 2008 todas as atividades do JRS no país seriam encerradas. Estávamos baseados no interior do país, na cidade de Voinjama, no Condado de Lofa, muito próximo da fronteira com a Guiné, a aproximadamente 400 km da capital do país, Monróvia. Quando chegamos havia um espanhol que em poucos meses acabou seu contrato e deixou o projeto. Assim, em Voinjama, ficamos só nós dois de estrangeiros, sendo os outros 15 trabalhadores todos liberianos. O trabalho estava já bastante estruturado e o escritório nacional em Monróvia ajudou-nos bastante. Não tínhamos nenhuma experiência prévia nesse tipo de trabalho humanitário, mas com paciência e vontade de fazer as coisas darem certo obtivemos resultados bastante positivos. O Mauro iniciou o trabalho como responsavel pela logistica e administracao e em seguida assumiu a posição de Diretor do Programa em Voinjama, acumulando também as funções anteriores. Eu coordenava os projetos de assistência a vulneráveis, construção de casas e construção e reabilitação de escolas. Quando chegamos os projetos já estavam diminuindo as atividades e alguns já tinham sido finalizados. Além dos projetos de construção, que foram os últimos a serem encerrados, restavam ainda em atividade os projetos de Conscientização em Saúde, onde os coordenadores visitavam comunidades, faziam treinamentos e davam orientação sobre questões de higiene, auto-estima, saúde e prevenção de doenças; e o projeto de Agricultura Escolar, onde os coordenadores distribuíam ferramentas, sementes e davam orientações de como cultivar pequenas hortas para a alimentação escolar.
O processo de retirada de uma organização de um país como a Libéria requer muitos cuidados e bastante sensibilidade de todos os envolvidos. As comunidades de retornados com que trabalhávamos vinham sendo atendidos pelo JRS desde a época dos campos de refugiados na Guiné e dos campos de deslocados internos em outras regiões do país. A maioria dos trabalhadores começara realizando funções voluntárias dentro dos campos e quando esses foram fechados fora convidada a trabalhar nos escritórios do JRS no país. Foi muito forte o sentimento de abandono que essas pessoas experimentaram com a partida próxima do JRS, o que tornou os meses finais de presença da organização na Libéria um período bastante difícil, em que sentíamos que cada um tentava receber o máximo que pudesse da organização no pouco tempo que restava. Buscamos então identificar organizações locais que pudéssemos capacitar e treinar para continuarem a realizar um trabalho parecido com o que havíamos realizando durante os anos de presença no país.
Quando terminamos nosso contrato na Libéria surgiu o convite para continuarmos o trabalho pelo JRS na região da África do Leste, no sul do Sudão, numa cidade chamada Nimule, na fronteira com a Uganda. O Sudão, atualmente, está em processo de separação. Há um acordo de paz assinado entre o norte e o sul e em 2011 está previsto haver um plebiscito para ser votada a separação ou não do país. Durante mais de 20 anos as duas partes estiveram mergulhadas em uma traumática guerra-civil. O norte é predominantemente árabe e o sul tem origens africanas, com influência muito forte da Uganda e do Quênia.
Nosso trabalho no Sudão é um pouco diferente do que foi na Libéria, embora também trabalhemos com comunidades de retornados. Muitos ainda estão no processo de retorno, tanto voluntário e espontâneo, como patrocinado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Não é nem um pouco fácil o retorno, uma vez que as terras estão tomadas pelo mato, não há nenhuma estrutura básica disponível e há ainda muitas áreas de alto risco por ainda terem minas terrestres enterradas. Água é um grande problema e quando os poços estão disponíveis, na maioria das vezes é necessário caminhar quilômetros para acessá-los. Escolas postos de saúde e hospitais são escassos e estão presentes basicamente nos núcleos mais urbanizados. A maioria das escolas não tem nenhum tipo de estrutura permanente para as salas de aula; algumas apresentam estruturas temporárias levantadas com esforço pelas comunidades com troncos e capim; e muitas aulas são ministradas debaixo das poucas árvores ainda existentes na região.
O trabalho do JRS no Sudão é focado na educação primária e secundária, com algumas bolsas de estudo em universidades e centros de treinamento para capacitação de professores. Além disso desenvolve projetos de alfabetização de adultos e de disseminação de paz. O Mauro é o Diretor do Projeto em Nimule e eu coordeno os projetos de construção e reabilitação de escolas dentro dos departamentos de educação primária e secundária.
Até poucos anos o JRS era responsável pela educação na região. As escolas eram poucas e cabia à organização dar assistência a praticamente tudo, desde o pagamento de professores até a distribuição de material escolar. De uns dois anos para cá o governo no sul do Sudão começou estruturar-se e aos poucos o JRS está tentando devolver ao governo as suas responsabilidades com relação à educação. Com o retorno das comunidades, o número de escolas triplicou, os alunos são muito numerosos e a demanda por assistência é enorme. O governo tem resistido a assumir o seu papel na educação, se diz incapaz, e continua esperando que o JRS solucione todas as suas dificuldades. A corrupção é grande e os cargos são por indicação e simpatia, ou seja, muitos que os ocupam não apresentam qualificação nenhuma, o que acaba dificultando ainda mais o progresso do sistema educacional.
O projeto em Nimule está previsto para continuar pelo menos ate 2012. Aqui o trabalho é mais de capacitação e de organização da estrutura para os próximos anos. O JRS está presente em Nimule desde 1998. Foram anos sobretudo de conflitos e incerteza. Só nos últimos dois anos, com a paz parecendo mais estável, as pessoas estão acreditando que ela possa ser duradoura e desde o início de 2008 estão retornando e tentando recomeçar suas vidas. É um desafio bastante grande atender essa população de retornados sedentos por uma oportunidade. A educação ainda está em um nível muito precário e o caminho a ser percorrido ainda é longo.
Por mais que o ambiente e as condições de trabalho sejam difíceis, tem sido um grande e gratificante desafio trabalhar na reconstrução da vida de tantas pessoas tão carentes de assistência e tão sobrecarregadas de incertezas em países devastados por décadas de guerra civil. Buscamos trabalhar ao máximo próximos das populações locais e envolvê-las nesse processo de retomada de auto-estima e de reconstrução de suas vidas. Acreditamos que mesmo que não possamos modificar totalmente uma situação tão complexa, somos capazes de plantar algumas preciosas sementes que têm boas chances de germinar, produzir saudáveis frutos e estimular mudanças duradouras.

Ana Livi. Arquiteta e Urbanista graduada em 2007 pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Coordenadora dos projetos de construcao e rehabilitacao de escolas JRS Nimule, Sul do Sudao.
Mauro Weber Rosito. Graduado em 2004 em Administracao de Empresas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 2007 completou a especializacao em Acao Humanitaria Internacional na Universidade de Deusto, Espanha. Diretor de Programa JRS Nimule, Sul do Sudao.



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