Radicada em Londres há mais de 40 anos, a estilista brasileira Cristina Eastwood já fez a cabeça da Realeza Britânica. Agora ela está mudando a vida de artesãs dos morros cariocas. As bolsas da Ephemeral Brazil já estão nas vitrines de Londres.
Por Cristina Eastwood
Eu nasci no Rio de Janeiro e minha infância foi maravilhosa, cercada pela natureza do bairro da Urca. Lembro da casa em frente ao mar, eu ainda menina, caçando siri, pescando nas pedras e nadando até os barcos, como se fosse uma sereia. Minha curiosidade era saber de onde vinham aquelas embarcações, com suas bandeiras diferentes. Eu também era muito ligada à terra. Vivia cuidando do jardim, com meus animais. Tinha tartaruga, coelho, gato, periquitos e até uma coruja de estimação. Costumava ouvir que minha tataravó era uma índia potiguara. Acho que puxei esse meu lado selvagem dela. Desde pequenininha, eu adorava plumas e penas. Acordava e ia direto ao galinheiro. Colocava plumas na cabeça e ficava andando descalça.
Aos 20 anos, saí meio “fugida” de casa e aterrisei na Europa. Antes de chegar na Inglaterra, que acabaria se tornando meu lar, desbravei algumas cidades européias. Trabalhei numa fábrica de chocolate na Holanda, nos museus de Viena vi de perto o que tinha aprendido no curso de História da Arte, no Parque Lage, e passei dias inesquecíveis em Paris.
Quando deixei o Rio de Janeiro tinha um objetivo claro na minha cabeça. Queria estudar e promover a cultura brasileira no exterior. Foi o que fiz. Terminei meu curso de História da Arte, em Londres, e comecei a fazer diversos trabalhos, sempre ligados ao meu país.
Para conquistar meu ganha-pão, tive que ir à luta. Nunca imaginei que ali começava uma grande carreira para mim. Sempre adorei acessórios. Não saio de casa sem algum laço, fita no cabelo. Pulseira então, são sempre muitas. Decidi começar a vender o que gostava. Colares, pulseiras, brincos, cintos, acessórios para cabelos e ornamentos para sapatos. Eu desenhava tudo e tinha algumas costureiras me ajudando a montar cada peça manualmente. Usava seda, cristais austríacos e vidros italianos, entre outros materiais. Em pouco tempo, os acessórios Cristina Eastwood começaram a chamar a atenção dos compradores de grandes lojas, como Harrods, Harvey Nicholls, Neiman Marcus, Laura Ashley, Saks e Bloomingdales. Logo tive que contratar mais mãos para ajudar na confecção das peças. Tudo feito lá, no ateliê, atrás da minha casa do século XVI, em Stockton, sudoeste da Inglaterra. Comecei a participar de feiras de acessórios e bijouterias no mundo inteiro. Minhas peças foram parar nas vitrines de lojas da Inglaterra, França, Estados Unidos e Japão.
Não posso negar que estava orgulhosa do meu sucesso. Era óbvio que me realizava ver meus laçarotes sendo usados pela Duquesa de York, Sarah Ferguson, por exemplo. Um dos momentos mais emocionantes foi quando soube que o Princípe Charles tinha encomendado algumas peças da minha coleção para dar de presente à Diana. Algum tempo depois, vi jornais e revistas internacionais mostrando a Princesa, na Austrália, usando uns lacinhos criados por mim para enfeitar a meia-calça. Além dos acessórios, também produzia chapéus, muitíssimo requisitados na Inglaterra.
Paralelamente, nos últimos anos, produzi eventos com artistas latino-americanos em galerias de Londres. Além de divulgar essa gente, o objetivo dos eventos era sempre levantar fundos para alguma comunidade carente, projeto social, humanitário ou então relacionado ao meio ambiente. Meu pai sempre soube da minha vontade em trabalhar com arte, por isso, em 1986, me mandou 100 quadros de sua coleção particular para eu organizar uma exposição em Londres. Desde de lá, nunca mais parei.
Há dois anos, por motivos familiares, fiquei quase quatro meses no Brasil e lá tive tempo para começar a colocar de pé a Ephemeral Brazil. Queria trazer para a Europa a arte brasileira e ajudar pessoas carentes. Foi nas favelas cariocas que encontrei o que procurava. Subi o morro e conheci a ONG Transformarte. Lá me deparei com donas-de-casa, faxineiras e catadoras de lixo que produziam artesanalmente bolsas e acessórios feitos com material reciclado - papier-maché, filtros de café, latas de alumínio. São cintos, chapéus, sapatilhas e bolsas criadas a partir de tecidos usados, jornais e garrafas PET e decoradas com crochê e canudos plásticos.
Hoje a Ephemeral Brazil é uma fundação que criei em Londres. Artesãs dos morros do Cantagalo, Pavão e Pavãozinho e de comunidades carentes em Itaboraí e São Gonçalo produzem peças que estão sendo vendidas na Europa. O trabalho dessas mulheres já esteve exposto em galerias, eventos; como o da Embaixada Brasileira de Londres, no final do ano passado. São aproximadamente 30 mulheres envolvidas no projeto. Nós desenvolvemos com elas o conceito de cada coleção, investimos em material e compramos as peças delas.
As bolsas da Ephemeral Brazil são comercializadas na Europa com uma etiqueta especial, mostrando a importância do trabalho que vem sendo realizado junto à essas comunidades carentes. É o que chamamos de Rags to Riches (Do Lixo ao Luxo). Uma bolsa custa entre 40 e 90 libras (cerca de 140 a 300 reais). No Brasil, as peças podem ser encontradas na loja Studio Timeless, em São Paulo.
Meu sonho é desenvolver um fundo de longo prazo para essas artesãs, mas para isso, precisamos de mais patrocínio para dar uma maior visibilidade à marca.
Para saber mais acesse: www.ephemeralbrazil.com/
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