Com o comprometimento de:
Quem costumava passar pela Lagoa - bairro nobre do Rio de Janeiro - pode não ter dado conta de que bem ali, na calçada da Hípica, coberta por sacos plásticos pretos, sentada numa caixa de madeira, havia alguém. Para nós, ela ainda não tinha um nome, mas na região era conhecida de alguns generosos que lhe serviam, de vez em quando, uma refeição ou a deixavam usar o banheiro de um posto de gasolina, e até mesmo, fazer uma fezinha na megasena. Para muitos passantes, era mais uma moradora de rua a aumentar as estatísticas e desperpecebida do resto do mundo.
Muitas vezes, indiferentes aos que nos cercam, acostumamos a olhar para o lado, ver uma pessoa caída na rua e nada fazer. Triste realidade. Talvez por isso, caminhamos envoltos em nossas desculpas e justificativas achando que somos incapazes, e não temos a magnitude e a solidariedade suficientemente sólida para fazermos algo, pensando que esse algo deva ser grande. Nos iludimos e refutamos a idéia de ajudar nos desculpamos de nós mesmos e dos outros, por não sermos Jesus ou Madre Tereza de Calcutá. E assim, tristemente, traçamos nossos passos rumo ao nosso egoísmo, indiferença e falsa impotência. Muitas vezes, por não querermos fazer algo e outras por, simplesmente, não sabermos o que fazer ou como fazer. Graças a Deus que nem todos são assim.
Um belo dia do mês de fevereiro de 2005, passa por ela uma mineira, muito dedicada à espiritualidade e alerta aos problemas humanos. Vany dirigia rumo ao seu compromisso, com terço na mão, como é de costume. Sem explicação, olhou fixamente para um saco escuro que se mexia. Pensou, seria um bicho? Uma pessoa? O vento? Ou estou vendo demais? Absorta, deu a volta no quarteirão para passar mais perto do então saco preto e, quando olhou para baixo, pode ver os pés, que pareciam ser de uma mulher. Olhou mais uma vez, deu outra volta no quarteirão, parou com o carro mais perto e constatou: ali, debaixo daquele saco, tinha alguém.
Atrasada para o seu compromisso, seguiu para buscar o marido. Ao encontrá-lo, contou o ocorrido, pedindo que voltassem à Lagoa. Já era noite e o lugar costuma ser vazio e escuro. O marido, embora também seja uma pessoa generosa, por não ter sido testemunha da cena, pondera com a razão e fala: - Vamos embora, amanhã voltamos, ainda temos um chão até Niterói. Teimosa, porém sensata, achou melhor voltar no outro dia. Fora embora contrariada e com a cena, que havia presenciado que não lhe saía da cabeça. Meio atormentada e com muitas perguntas sem resposta rondando a sua mente, assim que chegou a casa, recolheu-se aos seus aposentos. E a partir daquele dia, em suas orações diurnas e noturnas, passou a incluir aquela pessoa que ainda ela não tinha certeza ser um homem ou mulher, mas que, sem dúvida, era um filho de Deus. Orou e pediu sabedoria e discernimento para que pudesse fazer algo. Por ser mulher de fé sólida, tinha certeza de que suas orações seriam respondidas.
No dia seguinte, volta ela ao mesmo lugar na Lagoa, dirigindo com seu terço na mão, seu hábito. Enquanto dirigia, pensava: - Talvez a pessoa tenha ido embora, talvez ela estivesse doente, quase morta. Mil perguntas rondavam sua alma inquieta.
Ao chegar ao mesmo lugar do dia anterior constatou: ela ainda estava lá. Sentindo um misto de medo e curiosidade, tomou coragem, desceu do carro e foi até o saco preto, moradia daquela pessoa. Chamou:- Olá, quem está aí embaixo. Oi, oi...você aceita um almoço? Sem resposta, mas percebendo que a pessoa havia ouvido, disse: estou deixando um almoço para você. Volto amanhã. E assim fez, durante meses. Sabia que para conseguir algo dela, teria que ser paciente e perseverante. Após mais ou menos dois meses Vany, a mulher solidária, consegue estabelecer um diálogo com De Lurdes, a mulher moradora de rua. Conquistando aos poucos a confiança de De Lurdes, Vany vai, também em medidas homeopáticas, descobrindo suas histórias, seu pequeno mundo e também seus sonhos. Era o ano de 2005, quando essa linda história de resgate humano começou. Já aposentada e bem de vida, Vany, colocou De Lurdes em sua rotina e todos os dias, religiosamente, estava lá, para dar-lhe um almoço, um jantar, um carinho...uma atenção. Conversava com ela, perguntava-lhe coisas de sua vida, mas sempre com respeito e sem muito remexer em suas lembranças. Sábia e ponderada, Vany sabia que não poderia, nem deveria remexer em lembranças, pois não sabia que tipo de experiências traumáticas e doloridas De Lurdes poderia ter vivido. Respeitava-a, como era de sua índole e esta era sua atitude diante de todos e diante da vida. Respeito era seu norte. Sempre que pode lembra aos que têm o prazer de estar com ela, a frase ensinamento de seu pai: “Seu direito termina quando começa o do outro”. Com este ensinamento, que seu pai parafraseava de Abrahan Lincoln, construiu a sua vida e seus relacionamentos. É claro que com De Lurdes não seria diferente.
Com a conversa avançando e o relacionamento se estreitando, Vany, descobriu que De Lurdes não tinha vícios e que havia trabalhado como doméstica durante anos num apartamento da Lagoa. Certa vez, disse que tinha família no interior do Estado do S.Paulo-Lorena, mas havia perdido o contato com todos. Sendo filha única, não tinha irmãos.
Afeiçoando-se um pouco mais a cada dia a De Lurdes, Vany levava presentes: eram novas capas de chuva e o que ela pedisse (muito embora fosse difícil pedir alguma coisa, sem que fosse estimulada a isso) sempre da cor preta, como ela gostava. Aos poucos começava a dizer sua preferência nas refeições. Feijão e refrigerante me dão gases, disse ela uma vez. De outra vez, pediu um maiô preto. Gostava de banhar-se na Lagoa, provavelmente o único lugar onde podia tomar banho sem ter que pedir a ninguém e sem ser perturbada. Sua preferência era banhar-se nas madrugadas de verão.
Por duas vezes De Lourdes foi fotografada e veiculada, sem que soubesse, no Jornal O Globo. A primeira vez, no artigo " A desordem no limite da criminalidade" em 31/05/2005. A segunda, na coluna de Ancelmo Góis, com o título "Os miseráveis" em 07/09/2006 e além dessas vezes, em um artigo, intitulado "A pé" na coluna de JX Braga no dia 14 de janeiro de 2006. Indignada com a violência verbal ao tratar de De Lurdes, Vany respondeu ao jornal com texto que segue anexado a este.
Passado quase um ano, Vany viajou de férias e deixou a incumbência para amigos e familiares irem até De Lurdes para levar um almoço, um lanche ou um jantar. Nesta época já sabia das preferências de De Lurdes e pode por isso, orientar a todos que tipo de alimentação era melhor levar.
Vany não conseguia mais passar um dia sequer da sua vida sem pensar e sem orar por De Lurdes. Mas ainda assim, achava que fazia pouco. Queria fazer muito mais. Continuava a pedir em suas orações por sabedoria e discernimento para que tivesse um grande insight de como poderia dar àquela mulher condições dignas de vida que todos nós merecemos.
Foi na ocasião da viagem de Vany que eu conheci De Lurdes. Fui uma das convocadas. Era um dia de sol de abril. Nesta época, ela ainda passava a maior parte do tempo embaixo do saco. Mas a relação com Vany já estava avançada. Ela já sabia algumas coisas da vida de De Lurdes e já atendia por seu nome, quando chamada.
Vany me indicou o lugar onde deveria encontrá-la. Estava acompanhada de meu marido e de um casal de amigos, pois, após a tarefa cumprida seguiríamos para Teresópolis para a festa de um amigo. Estupefatos, paramos em frente ao saco e a chamamos, como Vany havia orientado. Debaixo do saco preto, surge uma mulher adulta e ainda jovem, com um sorriso bonito e simpático. Disse: - Olá De Lurdes, a Vany, viajou e pediu que entregássemos o almoço para você. Ela respondeu: Ah, ela me disse que iria viajar e que você viria. Obrigada.
Esticando o olhar, mirou o meu amigo e disse em tom alegre: - Ah!! Esse aí é bonito!!
Todos nós rimos! Entregamos sua refeição e seguimos para o aniversário, comentando o quanto impressionante era uma pessoa viver naquelas condições. Estranhamente, De Lurdes, até hoje pergunta por mim.
Vany voltou e continuou com sua dedicação. Passou a procurar um local onde ela pudesse viver em melhores condições. Após muita procura, encontrou um abrigo onde De Lurdes está desde 2006 até hoje. Desde então, De Lurdes pode encontrar, de novo, uma maneira digna, limpa e confortável de viver. Contando com acompanhamento psiquiátrico e terapêutico, De Lurdes tem seu quarto, com uma cama e uma televisão, dada por Vany. Tem um celular que facilita a comunicação com Vany e com o mundo, embora desconfie que seu mudo resume-se a sua história com esta mulher que a tirou da rua. Em seu novo lar, De Lurdes tem o direito de sair e voltar. Tem privacidade, é acompanhada por médicos e de escondida embaixo de um saco passou de De Lurdes, a moradora de rua com nome de Santa, a De Lurdes uma pessoa iluminada que, através da caridade e da solidariedade de Vany, pode ter da vida tudo o que, penso eu, nem sequer, teria imaginado. De Lurdes, uma vida recomposta pelo coração de alguém que teve coragem, amor ao próximo e atitude para fazer algo por quem estava largada a própria sorte.
Da mesma forma que o acaso fez a aproximação das duas, a Providência Divina, através de uma profissional de saúde pública, colocou um bilhete como nome, telefone de quem poderia, finalmente, realizar o grande sonho das duas: proporcionar de novo uma maneira digna, limpa e confortável de viver. De Lurdes, desde 2006, tem seu quarto, com uma cama e uma televisão, presentes de Vany. E o mais importante, tem acompanhamento psiquiátrico e terapêutico.
De Lurdes – ex-moradora de rua, recebe a visita de Vany uma vez por semana. Aniversaria no dia 23 de abril, dia de São Jorge o guerreiro e tem idade calculada por volta de 43 anos.
Vany – nome fictício de uma solidária que prefere não aparecer.
OBS: Esta história verídica tem a aprovação e autorização de publicação de Vany e de De Lurdes.
Atenciosamente,
Deborah Leitte
Tel.:21-9145-3323
deborah_leite@yahoo.com.br
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